

Assim começou mais uma jornada. Ou antes, continuou.
Como é que vim aqui parar? Boa pergunta. Sempre tive vontade de fazer voluntariado. Até há uns bons anos atrás, antes de me tornar enfermeira, pensava que isso não era possível. Mas depois … acasos atrás de acasos – não há coincidências, isso já aprendi há muito tempo.
Cruzei-me com uma das actividades de Médicos do Mundo Portugal no Porto que se chamava “Jardins Vividos”. Assim entrei para a organização. Voluntariei-me para projectos nacionais mas sempre com “olho” nos internacionais.
Dia após dia, mês após mês … passaram-se oito anos até ter finalmente a oportunidade/disponibilidade de ir “international”. Durante esse tempo participei em vários projectos com uma enorme variedade de contextos: rua, centro de detenção, quarto de pensão, lar, etc.
Pessoas sem-abrigo, trabalhadores do sexo, imigrantes, idosos, usuários de drogas … Confesso que a minha predilecção cai sobre as pessoas sem-abrigo principalmente pela complexidade de abordagens, multiplicidade de factores e variedade contínua de desafios para quem trabalha com eles e, muitas vezes, para eles.
Bem … “international”. Depois de alguns/vários dias de preparação aqui estamos nós. Uma equipa de 5 a iniciar a travessia da fronteira de Jimani (República Dominicana) com o Haiti.

Pessoas por todo o lado. Motas, carros, camiões de ajuda humanitária. Tap tap os mini-autocarros públicos de transportes do Haiti (assim chamados porque são todos identificados com a matrícula TP e a sua decoração única). Andamos mais lentos que o passo do caracol. Não cabia um palmo entre carros (às vezes menos).
Já não havia filas apenas sentidos: um em direcção ao inferno e outro a sair dele.
Passados os limites da fronteira pó, muito pó. Crianças a vaguearem sozinhas nas montanhas de cal. Se tinham família não sabemos. Começamos logo a li a projectar o que iríamos encontrar.
Pelo percurso íamos vendo casas destruídas e acampamentos.
Era apenas o prenúncio do “muito pior” que nos esperava.

Chegados a Port-au-Prince sentimos o trânsito infernal, a desordem. Destino? Hospital coordenado entre Médicos do Mundo Grécia e a equipas da República Dominicana, próximo do aeroporto internacional.
O que é que faz agora um enfermeiro? Deixa de ser EU e passa a ser NÓS – a equipa.
Agora somos uma equipa e só conseguimos aguentar a pressão como tal. Não há o senhor enfermeiro ou o senhor doutor ou … Não há relação de superioridade ou inferioridade. Não há hierarquias.
Somos iguais.
Somos muito mais do que enfermeiros. Posso mesmo enumerar uma listagem de quem passei a ser e o que passei a fazer:
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Montagem de tendas, preparação de equipamento, limpeza de terreno, amiga, confidente, colega de longa data, a imagem da tranquilidade quando por dentro só há turbulência, poliglota (inglês, francês, crioulo, espanhol, italiano, grego), relações públicas, assexuada (pelo menos na fase inicial da emergência), heroina, bandida, conviver directamente com ratazanas que mais parecem coelhos e galinhas que nem conseguem cacarejar de tão esfomeadas, diplomata, conciliadora, mediadora cultural, ponto de referência, professora, montanhista, etc.
A nossa actividade começa com o trabalho no hospital – visita de apresentação, muito breve e mãos à obra. Fico de apoio ao nosso médico mas depressa percebemos que o caos é muito e sou mais útil na triagem. As consultas são feitas em francês e com a ajuda de um tradutor local quando a pessoa só fala e entende crioulo – acreditem que são muitos nesta situação.
A triagem. Além de não existir … não existe. É feita por jovens locais que foram “contratados” como tradutores e cuja missão é escrever o nome da pessoa, sexo, idade e queixas. As queixas? “Malade à la tête, malade à la gorge, buttons, malade au estomaque, fièvre, diarrhée, malade au ventre” – mal de cabeça, de garganta, pequenas vesículas na pele, mal do estômago, febre, diarreia e mal de barriga são as principais queixas. Quantas destas são efectivas? Arrisco dizer menos de 50%.

Geralmente o mal é outro, sendo o que predomina: stress pós-traumático, desnutrição, desidratação, infecções genito-urinárias, micoses, pediculoses, escabiose. Basicamente o grosso das afecções pós-trauma com condições habitacionais e nutricionais inexistentes. E ainda a cólera e a malária e, as alterações psicomotoras provocadas pelas “ervas”, o vodoo ou como dizem naquelas bandas a “magia negra”.
Deparamo-nos também com problemas crónicos como: HTA, Diabetes, cancro, asma, etc. O que fazer nestes casos? Sabemos que não há medicação suficiente para dar continuidade ao tratamento, muitas vezes nem há para o iniciar. A opção?
Voltando à triagem. Pois. Fazer compreender que o que dizem ser uma urgência não o é (muitas vezes são casos de puro histerismo) e que os idosos não têm prioridade sobre os mais novos, principalmente as crianças, só porque são idosos. Ui, grande dificuldade.
Fazer com que as pessoas respeitassem a fila, gerir os tradutores, ouvir as lamentações e o choro constante das crianças …
Houve um dia em que se estava a aproximar a hora do nosso almoço e ainda tínhamos cerca de 12 bébés por atender (com a sua respectiva mãe). Choravam todos e estavam a aguardar há horas ao sol tórrido – a sombra era praticamente inexistente. O que é que fizemos? Bem … sabíamos que era uma hora em que só se atendiam urgências e que o resto teria de esperar, pelo menos eram assim as regras.
O que fizemos foi simples. Juntamos as mães todas com os seus filhos num local próximo das macas onde eram atendidos os doentes e sentámo-los a todos em colchões. Tratamos de lhes dar água: 1º aos bebés e depois às mães. De seguida quem amamentava foi o que fez e … silêncio absoluto. Bebés dormiam e mães acalmavam. Parecia um verdadeiro berçário. Depois foram todos atendidos ordeiramente.

Muitos mais episódios haveriam para contar.
Devem estar a perguntar-se dos casos de amputações/trauma. Eram atendidos por outros colegas da equipa. Os casos de verdadeira urgência em que não tínhamos recursos eram acompanhados de imediato para os hospitais da proximidade, que também estavam atolados de gente e eram tendas sem recursos.
Ah é verdade, quase me esquecia. Falei de almoço, certo? Pois, almoço… O almoço era arroz com arroz. Às vezes com aroma de feijão ou essência de massa. De vez em quando apareciam umas espinhas ou umas amostras e formato de ervilha de carne enlatada. Era este o nosso almoço e o jantar. Isto até encontrarmos supermercados a funcionar e aí passaram a ser enlatados, pão e alguma fruta que íamos comprando nas ruas da cidade (lembram-se das imagens das ruas da cidade? Então imaginem a fruta) que era bem doce como cabe a uma ilha das Caraíbas.
A nossa missão era maioritariamente a exploração de necessidades e desenho de um plano de intervenção para as equipas que viriam a seguir. Mais tarde identificamos uma comunidade inteira sem apoio médico e deslocamo-nos para mais próximos dela onde ficamos alojados numa casa de freiras as “Irmãs Salesianas”. A elas o meu muito obrigada pela hospitalidade, carinho e papel que desempenham junto da comunidade.
Equipa de MdM com uma das irmãs Salesianas. Foto: Sarah Bove
Aí montamos a nossa clínica e a equipamos. Complicado mas recompensador quando começamos a ver a afluência das pessoas à mesma e a relação de confiança que se ia criando.
Outra pergunta que devem estar a fazer: então e os mortos? E as imagens que se viam na televisão?
Ainda haviam muitas casas por explorar e acredito que muito mais milhares de mortos debaixo delas. Quando chegamos não havia electricidade, as ruas estavam tal e qual as imagens que chegavam a Portugal com mais um leve acrescento – o cheiro. A imagem que ainda guardo na memória é a das pessoas a vaguearem entre os escombros e outras a irem/virem de algum lugar mas a contornarem os escombros como se se tratasse de simples obstáculos. Perfeitamente apáticas no meio do lixo e do perfeito caos. Sem deixarem transparecer qualquer tipo de emoção.
Cães, gatos e porcos (do tamanho de vacas) nas ruas a comer de TUDO.
Na semana em que me vim embora já havia electricidade nas principais artérias da cidade e já se começava a ver equipas de limpeza nas ruas e nos bairros.
Somos enfermeiros, conselheiros, somos especialistas em dermatologia, nutrição, cirurgia, ginecologia, obstetrícia, pediatria… e não somos especialistas em nada. Precisamos de saber um pouco de tudo e não conseguimos. Não temos onde ir buscar bibliografia. O que fazemos? O melhor que podemos. Porque falo no plural? Porque somos uma equipa onde várias cabeças pensam melhor do que uma e funciona!
A despedida. Se pensamos que estamos preparados para a chegada e para o que vamos encontrar, quando na realidade não estamos, tentem preparar a despedida. Não conseguimos. Preparamos notas, material, a verdadeira passagem de turno mas não conseguimos preparar a separação.

Não nos separamos. Não há um dia em que não pensemos no Haiti. Em como ajudar quem ainda lá está. Depois vem o sentimento de impotência. Se a frustração predominava enquanto lá estávamos – não podíamos fazer mais que o nosso próprio limite. A impotência abunda em quem está do lado de cá e não consegue meios para ajudar e vê que os outros já se esqueceram e …
A verdade é que quando regressei usei esse sentimento de impotência e canalizei-o num projecto que já estava a ser delineado e teve de ser adiado com a minha ida para o Haiti – a criação de uma Associação.
Eu e um grupo de amigos/colegas/familiares unimo-nos e criamos uma associação. Chama-se Passo Positivo (LINK), a que nós chamamos carinhosamente de PASSO. É um PASSO para todos nós e pretendemos que seja um passo para muitos mais, principalmente os beneficiários dos nossos projectos.
O que fazemos, o que somos, onde estamos, para onde vamos? Está no blog, facebook, etc. Onde nos inspiramos? Em todas as nossas experiências de intervenção em projectos de cariz humanitário e social, nacionais e internacionais.

Eu? Pessoalmente, inspirei-me em tudo o que vivenciei, vi e ouvi ao longo de todos estes anos.
Quem já teve oportunidades semelhantes sabe bem a que me refiro. Quem não teve tem de experimentar.
Não dou conselhos mas faço uma grande sugestão: experimentem com consciência e profissionalismo, experimentem “cá dentro”, experimentem onde acham que está a credibilidade e formem-se. A formação a todos os níveis é essencial.
Muito mais haveria para dizer.
Colocar em palavras algo com que vivemos com tanta intensidade é para verdadeiros escritores e poetas.
Fiquem bem.
Enfermeira Isabel Ferreira
Fonte das imagens~.
O nome que identificam as fotos são do autor (Haiti, 2010):
- Armindo Figueiredo
- Giorgos Moutafis
- Médicos do Mundo Portugal