

Artigo de Opinião da Autoria do Sr. Enfermeiro :
Fernando Miranda
Chegam ao fim quatro anos de trabalho de aprendizagem de uma Ciência que, de tão nova, se torna incerta. Mas esta jovialidade confere-lhe um sem fim de oportunidades inscritas, em mais ou menos sonhos, que no decorrer da vida de estudante nos vão ocupando a mente num projecto, mais ou menos, hipotético de crescimento dentro desta profissão que uns, mais que outros, se entregam de corpo e alma.
Finda então uma Licenciatura em Enfermagem, com uma Cédula Profissional que nos confere o Titulo de Enfermeiro, parte-se para a vida profissional. Inicia-se um processo de procura de primeiro emprego, num cem número de instituições que têm como um dos objectivos a prestação de Cuidados de Enfermagem, e que conferem o mínimo para se poder levar em frente projectos delineados.
E… passa uma semana, um mês, muitos meses e em muitos casos um ano e tantos meses!… os projectos que fervilhavam, a mão certeira com vontade de mais certeira ficar e cada vez melhores cuidados de enfermagem prestar, começa a ficar flácida tal qual um músculo inactivo. O desespero instala-se, todo e todos nos pressionam e nos conduzem ao abismo – Então já trabalhas? Fulano e cicrano já estão a trabalhar! … e tu? Já arranjas-te emprego?. O folgo começa a diminuir, começa uma procura desenfreada daquela bóia que nos vai tirar do desespero.
E então inicia-se o processo de análise: todas propõe, aparentemente, prestação de cuidados de enfermagem; nenhuma, ou melhor, muito poucas propõe desenvolvimento profissional adequado; algumas propõem estágios profissionais de seis meses, que em muitas
situações chega ao fim e…, ficámos por aqui, porque claro alguém já está pronto a ingressar em tal estratégia de salvação; muito poucas, com baixa dotação de enfermeiros vão admitindo Enfermeiros em pseudo-estágios não remunerados com a promessa de ingresso em futuros concursos que aguardam aprovação de verbas de alguém lá de Lisboa para contratação de pessoal necessário, claro; temos também aquelas que aproveitando a conjectura arriscam e iniciam ofertas ridículas de ordenados, com a certeza que alguém irá aceitar; e temos as máfias que angariam mão de obra da mais qualificada da Europa para outros países, onde a Enfermagem se compara à nossa dos meados do século passado.
Perante este panorama, muitas são as vozes, sábias, que afirmam que isto se deve ao facto dos recém licenciados aceitarem tudo o que lhes aparece pela frente! A esses eu pergunto: vamos deixá-los afogar? Claro que não. É preferível deixarmo-nos ir com essas ditas bóias de salvação do que ir para caixas de supermercados ou mesmo TAE’s. Aqui só existem dois lados: as vítimas e os agressores. Tendo como vitimas os que ingressam agora no mercado de trabalho sem experiência profissional e os agressores simples abutres da eficiência económica que só a trabalham pelo lado mais fácil, descorando e ignorando o mais difícil poupar na despesa. Mas não julguem os mais sépticos da enfermagem, que isto é um problema só nosso. Não! Atravessa toda uma Sociedade dependente e não dependente do Estado Empregador. Tais uniformidades verificam-se não por culpa directa de alguém mas sim de todos, sim de todos os Portugueses.
Mas concentremo-nos na Enfermagem de hoje e na Enfermagem do futuro. É do conhecimento de todos que grande parte das instituições que prestam cuidados de saúde não têm os enfermeiros necessário para o fazerem com a qualidade esperada e, por tal, têm que contratar mais indivíduos. Mas quem sabe isso somos nós, enfermeiros. Façam um exercício e perguntem aos vossos vizinhos se na opinião deles sentem falta de Enfermeiros nos Cuidados de Saúde Primários. Eles quase de certeza vos vão dizer que não.
Porventura, um ou outro, que necessite já, de cuidados na doença instalada, vos irá dizer que faltaram meios físicos e talvez humanos, mas não dirá que existiu falta de enfermeiros na prevenção dessa doença, pois essa é avareza, falta de sorte. Mais flagrante é a opinião que a população possui dos cuidados de saúde mais diferenciados, em contexto hospitalar, onde aí a falta de enfermeiros transparece, não pelo facto de faltarem enfermeiros mas pela inércia dos que lá trabalham. Isto é, a falta de cuidados de enfermagem ou a diminuição da qualidade dos mesmos, não se deve ao facto de faltarem enfermeiros ou de a cada enfermeiro estarem atribuídos mais de 15 doentes, mas sim aos que lá estão não realizarem o trabalho adequadamente.
Então, temos que demonstrar por A mais B que na realidade faltam enfermeiros em Portugal. Não chega justificar com o argumento de que o rácio de enfermeiro/individuo é o mais baixo da Europa. O que compete, a cada um de nós, é demonstrar quais as funções do enfermeiro e para que ele existe. E não estou a falar só do injectável ou nos cuidados à ferida. Estou a falar no que representa o Cuidar definido por Colliére como “indispensável, não apenas à vida dos indivíduos mas à perenidade de todo o grupo social”. Esse Cuidar que muitos o conhecem por aborrecido e utópico, dado na maioria das vezes nas aulas chatas de Epistemologia, é a meu ver um bom ponto de partida para chegarmos às nossas comunidades e provar-lhes, então por A mais B, que mais enfermeiros melhorariam a saúde de todos tanto na Promoção da Saúde como na Prevenção da Doença. Temos que saber demonstrar para quê e porquê mais enfermeiros no Centro de Saúde, no local de trabalho, na rua, nos hospitais!
… Só assim é que as elites políticas da economia da saúde irão perceber quanto poderão poupar com ganhos em saúde efectivos à população e aí sim pouparem na aclamada despesa pública. Isto, porque se a população sentir essa necessidade irá reivindicá-la, logo lutar por ela. Assim como também luta pelo polícia, pelo professor, pelo médico e agora pela repartição de finanças. Irá também lutar pelo enfermeiro.
Compreendo que tal é difícil. Mas proponho outro exercício: quantos de vós part
icipam no movimento associativo, por exemplo, associações existentes na vossa freguesia (na colectividade lá do bairro, no clube de futebol da freguesia, na associação de bombeiros) e tento ir mais longe; quantos de vós já participaram numa Assembleia de Freguesia? Não ignorem, é pois nestes locais de partilha social, onde muitas vezes são colocados a discussão situações de difícil solução, e muitas vezes as mesmas residem em pressupostos da nossa profissão, mas como os participantes estão poucos esclarecidos, e não existe lá enfermeiro para dizer Eureka, os problemas são resolvidos por outras linhas de pensamento. Para não falar de situações que podem ser criadas para nós, enfermeiros: levantarmos problemas e apresentarmos as soluções. Acreditem que é nesta partilha que nós aprendemos muito e podemos ensinar muito do que é na realidade a Enfermagem, e de como faltam enfermeiros, e de como a sociedade poderia ganhar se os reivindicasse.
Muito haveria a dizer, mas temos que gerir os Bytes. Mas ainda há espaço para referir que com o Novo Modelo de Desenvolvimento Profissional muita coisa vai ser resolvida, mas não é suficiente.
Com isto, não estou a justificar o mau momento em que vive a enfermagem, muitas mentes o farão melhor que eu, só quero dar um contributo para que se pense. E, não fiquemos desmotivados num sentimento de inércia que só nos afunda ainda mais. Precisamos de um choque de ideias na enfermagem, para assim, esta renascer para a comunidade. Aí sim, acreditem, que de afogados passaremos a ser uma das bóias de salvação. Aproveitem o espaço comentários ou mesmo o próprio fórum para discutir-mos. Eu ando por aí como muitos de vós…