Direito de Resposta- Revista Sábado (artigo de Opinião)

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Deixamos esta carta que nos foi deixada no email e que merece ser publicada, lida e reenviada! A revista Sábado consegue iludir os utentes ao tentar dar a realidade de um Hospital e de um Serviço de Urgência.

 Artigo de Opinião revista Sábado

A insensatez e o total desconhecimento da realidade Hospitalar Portuguesa é evidente na reportagem!  Fiquem com as palavras dos Enfermeiros :

 Enviei esta carta ao Director da Revista Sábado devido a um artigo que não dignifica de todo a enfermagem, enviem para todos os colegas e façam chegar aos meios de comunicação social, eu ja fiz a minha parte. Se possivel penso que deveria ser exposto como artigo de opinião no vosso blog.

  Exmo. Director da Revista Sábado

Miguel Pinheiro

Assunto: Direito de Resposta

 No seguimento do artigo por vós publicado na edição n.º 290, intitulado “Os melhores hospitais de 2009” (págs. 51 a 73), serve a presente carta para expressar (atrevo-me) a revolta de uma classe de profissionais de saúde, leia-se, Enfermeiros, que vêem a sua imagem e o seu desempenho profissional denegridos.

Ao longo da edição, no que toca ao ranking dos hospitais portugueses, é notória a forma como se coloca a classe médica como personagem principal e, os restantes profissionais como meros figurantes.

O jornalista Pedro Jorge Castro e o repórter fotográfico Pedro Zenkl foram, durante 24 horas, a sombra de uma chefe do Serviço de Urgência de um hospital de Lisboa…convidados ou visita proposta? Curiosa será decerto a resposta!

Várias são as passagens nos artigos que revelam insensatez e um total desconhecimento da realidade da prestação de cuidados no dia-a-dia, nomeadamente da posição da Enfermagem, o seu papel fundamental na equipa, os seus conhecimentos científicos, técnicos e humanos, bem como a estruturação da profissão, enquanto detentora de funções independentes, nada espelhadas no vosso artigo; pelo contrário, o espelhado assemelha-se a um “enxovalho” público.

 Emergencia

Os leitores são atirados para uma realidade desfocada, uma realidade de submissão do Enfermeiro face ao Médico, através do recurso a expressões radicalistas:

“…desanca imediatamente por telefone, as enfermeiras que estão a fazer a triagem…” (pág. 55);

“…mandou recado por uma enfermeira…” (pág. 55);

“Elizabete Jorge acode de imediato. Está sozinha na enfermaria – e está em maus lençóis…” (pág. 64);

“O doutor está farto. Entre a administração de diuréticos e de nitratos o cirurgião recomenda-lhe calma…” (pág. 64);

“Elizabete entra novamente em histeria. Énio volta a adverti-la para se tranquilizar…” (pág. 65);

“ «Tudo calmo ao pé deste senhor» ordena o cirurgião.” (pág. 68).

A cobertura jornalística deste projecto, coordenado pela Escola Nacional de Saúde Pública, que assenta nos resultados dos cuidados, “…mais do que averiguar se os doentes são tratados nos serviços certos ou se organização do hospital responde de forma estruturada a um problema de saúde…” (pág. 51), não projecta para a sociedade quem está por detrás destas conquistas; se tal cobertura jornalística fosse alargada às 24 horas que os Enfermeiros passam junto do doente, a realidade descrita nas vossas páginas, com toda certeza, seria totalmente diferente.

A Enfermagem é retratada como a equipa de bastidores de uma peça dirigida pela Medicina, MAS médicos não são maestros que fazem uso sua batuta para dirigirem o trabalho dos Enfermeiros, isto é, não têm autoridade sobre o seu conteúdo funcional. Como equipa, ambos detêm funções independentes e interdependentes.

Nós, Enfermeiros, somos detentores de um curso superior – Licenciatura – formados por Escolas Superiores, a quem foram reconhecidas competências na prestação de cuidados. A nossa profissão faz uso de metodologia científica e distingue-se, por ser transversal a outras disciplinas, por conseguirmos dar resposta ao holismo do doente, e não apenas à sua componente biológica; somos um elo fundamental na cadeia do sistema de saúde, (sim, é verdade!) embora o vosso artigo caracterize (ainda que erradamente) a equipa de saúde como sendo apenas composta pelo corpo médico.

Convido-vos a uma breve análise do conteúdo funcional da nossa profissão:

·         Somos os primeiros na abordagem ao doente;

·         Identificamos problemas de saúde e actuamos em situação de emergência;

·         Organizamos, coordenamos, executamos, supervisionamos e avaliamos as intervenções de Enfermagem aos três níveis de prevenção, ao individuo, família, grupos e comunidade;

·         Decidimos sobre técnicas e meios a utilizar na prestação de cuidados de Enfermagem;

·         Utilizamos técnicas próprias da profissão com vista à manutenção e recuperação das funções vitais (respiração, alimentação, eliminação, circulação, comunicação, integridade cutânea e mobilidade);

·         Encaminhamos e orientamos para recursos adequados;

·         Promovemos a intervenção de outros técnicos de saúde;

·         Participamos na coordenação e dinamização das actividades inerentes à situação de saúde/doença, bem como na elaboração e concretização de protocolos;

·         Somos responsáveis por áreas como gestão, investigação, docência, formação e acessoria;

 A vossa edição enaltece os médicos pelos seus heróicos actos; eu destaco a sua conduta arrogante do alto da bata branca e, os impertinentes comentários lançados pelos jornalistas:

«Olhe doutora, beijei hoje uma senhora com gripe A. Acha que estou infectado? Quero a vacina!». Galhofa geral no posto de comando das urgências do Santa Maria.” (pág. 54);

Se faz jus ao seu título de médica, devia validar os medos do utente, e abster-se de juízos de valor.

“ «Com vocês duas aí a triar, isto hoje vai ser para negativos. É quase tão mau como a …» [e diz o nome de uma antiga enfermeira gozada por todo o serviço pela reputação de incompetência].” (pág. 55);

Prova escrita do enxovalho público dos Enfermeiros…

“ «Quem é que está a fazer tanto barulho? Senhores enfermeiros, não querem virar aquele senhor de lado? Parece o leão da Metro a rugir» - o barulho fez-lhe lembrar o animal que surge no início dos filmes de uma produtora de Hollywood.” (pág. 56)

Riram-se? Acharam cómico? Era algum familiar vosso? Era assim que o gostariam de ver cuidado…ou como diriam os Srs. de bata branca por vós enaltecidos: tratados? Fizeram alguma pesquisa prévia da fisiologia da dor? De como pode ser agonizante? É uma sugestão…

“Uma conversa desagradável: a filha quer saber porque é que não foi feito uma TAC ao pai, sente falta de um exame, algo palpável que confirme o diagnóstico. A chefe assume uma postura defensiva: «Expliquei-lhe três vezes na sexta-feira. Não vou discutir indicação de exames consigo. Estudei para isso, tenho 30 anos de Medicina, senão a medicina era feita por computadores.»” (pág. 56)

Felicitações pela sua larga experiência, pena que não se tenham lembrado de registar no vosso artigo a provável ansiedade que a dita filha devia sentir pela situação do pai, e a forma como isso influencia a percepção da informação que o profissional quer passar.

“ «Como é que lhe fez um exame neurológico se ele não responde nem diz nada?», insiste a filha. A médica responde: «Com a sua pergunta está a mostrar que não sabe o que é um exame neurológico» ” (pág. 56)

Duas vezes felicitações pelos 30 anos de Medicina que fizeram questão de realçar, e pela segunda vez lamento que os jornalistas não tenham realçado quem afinal tem que deter os conhecimentos, e quem está sujeito ao dever de informação…

É aqui que a ‘equipa dos bastidores’ sobe ao palco, para resolver as lacunas de informação deixadas. Com todos os seus conhecimentos científicos, os Enfermeiros esclarecem e validam a informação percebida por utentes e familiares.

Numa era em que se condenam leigos pelo uso indiscriminado de informação online, na procura de resposta para as suas dúvidas em questões de saúde (aquele palavrão dito pelo médico e que ninguém percebeu, aquela medicação que ninguém sabe o que é, como actua, os efeitos indesejados esperados, reacções a que devem estar atentos e comunicar aos serviços de saúde, os cuidados a ter face a determinada doença, vulgo, patologia, etc), seriam de enaltecer, sim, os correctos cuidados de saúde. 

Ao atribuírem notoriedade a simulacros como o 3º lugar: Hospitais da Universidade de Coimbra, mais uma vez revelam a vossa ignorância no que toca à profissão de Enfermagem. Internas de Medicina a fazerem-se passar por Enfermeiras “em maus lençóis”, “em histeria”, “assustada”, que “não ajuda”, que grita “Ai doutor, e agora?” cria a revolta no seio da nossa classe.

Poderia sugerir 24 horas com Enfermeiros com cobertura dos seus cuidados, do seu desempenho, das suas competências…mas não, não queremos mediatismos, apenas ser devidamente reconhecidos e dignificados como importantes que somos, pelo que fazemos.

Mais informo que a presente carta será remetida para a Ordem dos Enfermeiros, à qual será dado conhecimento do vosso infeliz trabalho, e a qual tomará as devidas posições.

 Convictos que este poderá ser o despoletar da voz da Enfermagem,

 Enfermeiro Marco Veríssimo

 Enfermeira Joana Santos

 Enfermeiro Tiago Silva

 (os despoletadores desta causa)

 

 

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17 Responses to 'Direito de Resposta- Revista Sábado (artigo de Opinião)'

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  1. Armando said,

    on December 1st, 2009 at 15:15

    Ainda bem colegas fui obrigado a comprar a revista . Que idiotices por lá se escrevem .

  2. Anonymous said,

    on December 1st, 2009 at 15:39

    Mas o que é que estes jornalistas conseguem ver ?

    Acham bonito a linguagem ? As expressões

  3. Mario said,

    on December 1st, 2009 at 15:48

    Aos colegas do Cogitare. Espero que as férias em Paris tenham sido boas e revitalizantes. Ou não fosse a cidade da Luz.

    O problema é que por cá ocorrem estes casos que não lebram nem ao diabo. Adorei a carta parabéns aos colegas Enfermeiro Marco Veríssimo
    , Enfermeira Joana Santos, Enfermeiro Tiago Silva.

    Haja agora uma resposta de quem nos representa.

  4. Marco Verissimo said,

    on December 1st, 2009 at 16:51

    A ordem ja nos informou que ira imitir um comunicado no site em breve

  5. Marco Verissimo said,

    on December 1st, 2009 at 16:54

    Caros Amigos,

    Acabei de ler e assinar a petição online: «A Revolta dos Enfermeiros pelo Direito da Resposta»

    http://www.peticaopublica.com/PeticaoVer.aspx?pi=Enf

    Eu pessoalmente concordo com esta petição e acho que também podes concordar.

    Subscreve a petição e divulga-a pelos teus contactos.

  6. Ps said,

    on December 1st, 2009 at 21:42

    Excelente noticia . A ordem vai emitir comunicado. E os nossos Sindicatos ?


  7. on December 1st, 2009 at 22:04

    O facto de termos ou virmos a ter uma posição oficial da nossa Ordem é de salutar. Ao ler a dita reportagem, passamos para um estado de incredibilidade perante o que foi escrito…. Mais o seu conteúdo e as afirmações são algo que deve ser ponderado pelos profissionais envolvidos e reflectem um cuidar e um tratar do doente, nada saudável !

    Heroismo, perante falta de humanismo. Não , obrigado. Se pensarmos que nos EUA , algumas destas atitudes levariam de certo a despedimentos e a processos legais por parte dos familiares, então vêmos que algumas das queixas dos utentes, por vezes, têm toda a razão de ser. Medicina requer humanismo e não pseudo-heroismo!

  8. Anonymous said,

    on December 2nd, 2009 at 00:56

    E já agora de nós os auxiliares também ! Só os DR. são importantes .

  9. Anonymous said,

    on December 2nd, 2009 at 01:09

    Vergonhoso

  10. Azevedo said,

    on December 4th, 2009 at 02:29

    Já assineia a petição online


  11. on December 4th, 2009 at 23:23

    Acabei de assinar a petição e acho que realmente é necessário mais movimentos como este para abanar a comunidade geral e científica em relação à nossa posição na mesma.

    Obrigado pela vossa iniciativa a todos os enfermeiros que tenham a coragem de gritar bem alto pelos nossos direitos e lugar preponderante nos Cuidados de Saúde, tem o meu total apoio.

  12. KIKA said,

    on December 12th, 2009 at 10:58

    Acham que de outra forma conseguiriam vender a Revista…ai! a crise a quanto obrigas! os jornalistas atè perdem a cabeça. Serão pagos a recibos verdes?

  13. Julio CarvalhoNo Gravatar said,

    on December 12th, 2009 at 18:42

    Parabéns Srs. Enfermeiros pela carta.
    Se os meios de comunicação retratassem realmente a realidade de um Hospital e nomeadamente de um Serviço de Urgência, coitados dos Srs. Doutores, lá se ia toda a sua pompa. Ficariam tão envergonhados que lhes custaria encarar os utentes. E mais não escrevo porque a realidade, nós os enfermeiros conhecemos bem. Agora vou assinar a petição.

  14. Carlos Pinto said,

    on December 15th, 2009 at 22:52

    Parabéns aos colegas pela iniciativa!
    Já assinei a petição e passei palavra.
    Bom era obter uma resposta.
    É lastimável… e não me merece mais comentários o que nessa revista se escreveu…

  15. Estagiários Escola Superior Enfermagem do PortoNo Gravatar said,

    on December 16th, 2009 at 12:44

    O presente artigo é uma vergonha para uma dita sociedade de um país desenvolvido que se considera inovadora. Mesmo os estagiários de escolas com a devida notoriedade jamais reagiriam de tal forma perante um doente! Deste modo, nós, alunos de enfermagem da Escola Superior de Enfermagem do Porto, vimos por este meio mostrar a nossa indignação pela ignorância, falta de respeito, ausência de rigor científico no âmbito da investigação por parte da equipa jornalística, que não o demonstrou ao longo do referido artigo, transparecendo falta de profissionalismo ao não descrever a realidade com base na evidência da prática clínica real.
    Além do mais vimos ressalvar que, felizmente, o trabalho em equipa multidisciplinar em cuidados de saúde, já é uma realidade aceite por todas as classes profissionais intervenientes e reconhecidos os enfermeiros como a personagem fulcral para a prestação de cuidados de qualidade e continuidade dos mesmos. Por tal achamos pertinente e sensato que a dita revista venha publicamente assumir o erro crasso que cometeu ao publicar uma realidade deturpada que implica a desvalorização de uma classe profissional que sustenta a realidade triste vivenciada por muitas das pessoas que recorrem aos serviços de saúde.

  16. Anonymous said,

    on December 16th, 2009 at 16:55

    A tal realidade deturpada reflectida neste artigo coincide com a imagem que parte da sociedade tem dos Enfermeiros. Ao invés de assinar abaixo assinados, talvez fosse mais produtivo repensar o modo como nos relacionamos com a sociedade e com os outros profissionais que partilham connosco os espaços de prestação de saúde. Como queremos nós sermos vistos como independentes do médico se uma parte importante dos Enfermeiros cultiva a supremacia do Sr. Dr. através das suas atitudes diárias?
    Como queremos ser respeitados e olhados como uma profissão de elevada capacitação técnica quando a formação de base dos Enfermeiros assume uma qualidade cada vez mais baixa?
    Como queremos ser/parecer autónomos se muitos de nós têm medo de decidir perante situações clínicas mais complexas?
    E a nossa postura, modo de nos apresentarmos perante as Pessoas, é a mais adequada para uma profissão que se quer assumir ao nível das restantes profissões superiores de saúde?

    Se calhar, a crónica infame destes jornalistas apenas é o reflexo do estado em que a Enfermagem caiu nos últimos anos, e que mais uma vez colocou a classe médica numa posição de dominância absoluta, por falta de concorrência.

    Talvez não devamos colocar as culpas (apenas) nos médicos apenas por estes fazerem bem aquilo que a Enfermagem ainda não soube fazer: vender e defender a imagem da sua profissão. (e isto não se faz apenas com tomadas de posição forçadas por acontecimentos como este…)

  17. Ana Santos said,

    on January 22nd, 2010 at 15:23

    Não sendo da área da saúde, fiquei indignada com o artigo publicado pela Sábado.
    Tendo a honra e o privilégio de ter duas filhas enfermeiras, a indignação cresceu porque sei o que TODOS os profissionais da saúde – enquanto equipa que “deveriam” ser – dão de si.
    Ficando-me apenas pela leitura do referido artigo, ficaria com a ideia que talvez os Srs. Dr. Fossem os que menos dessem de si… nomeadamente, pelas faltas de respeito evidenciadas do texto! Contudo, “conheço” os jornalistas e a manipulação que pretendem fazer da população.
    Sugiro que os PROFISSIONAIS de saúde se UNAM ENQUANTO EQUIPA QUE SÃO.

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