Especialidades de Enfermagem à la carte . (Artigo de Opinião – Enf. nuno Pinto)

Posted on December 17th, 2009 in Artigos de Opinião,Enfermagem,Ordem Enfermeiros,Saúde by Vera Carvalho
No Gravatar
“A natureza das coisas é uma questão de conveniência”
 Especialidades à la Carte - Opinião
 
Com a publicação do artigo 46º-A do Decreto-Lei n.º 74/2006 alterado pelo Decreto-Lei n.º 107/2008, de 25 de Junho abrem-se as portas das instituições do ensino superior à frequência de unidades curriculares isoladas. Segundo o artigo 46.º -A, referente à inscrição em unidades curriculares:

1.Os estabelecimentos de ensino facultam a inscrição nas unidades curriculares que ministram.

 2. A inscrição pode ser feita quer por alunos inscritos num curso de ensino superior quer por outros interessados.
3. A inscrição pode ser feita em regime sujeito a avaliação ou não.
4. As unidades curriculares em que o estudante se inscreva em regime sujeito a avaliação e em que obtenha aprovação:
* a) São objecto de certificação;
* b) São obrigatoriamente creditadas, nos termos do artigo 45º, caso o seu titular tenha ou venha a adquirir o estatuto de aluno de um ciclo de estudos de ensino superior;
* c) São incluídas em suplemento ao diploma que venha a ser emitido.
5. Pela inscrição nos termos deste artigo são devidos os montantes que forem fixados, de forma proporcionada, pelo órgão legal e estatutariamente competente do estabelecimento de ensino superior.

As especialidades em Enfermagem, assim desmanteladas, são vendidas à peça ou se preferirmos, a retalho. Cada um pode adquirir fracções de especialidades que mais se adequam aos seus intentos construir assim a sua própria especialidade, modularmente, à medida dos seus desejos…nem a IKEA seria capaz de melhor.

Ora, neste “comércio” retalhista á qual as especialidades foram entregues quase tudo ser permite, desde que a imaginação o alcance. Apesar de assumidamente não certificar “não-enfermeiros” para práticas da Enfermagem, a tentação para tal foi inocentemente semeada…, e não há maior apetite por actos vedados ou proibidos do que aquele que o conhecimento desperta. Por outro lado, a Enfermagem não frui ainda de uma definição clara da sua área de actuação, sendo que a leccionação de conteúdos de Enfermagem a não Enfermeiros, por instituições de ensino oficiais poderá legitimar no futuro reivindicações de outros grupos profissionais que tentem englobar áreas atribuídas à Enfermagem na sua carteira de competências.

 Nurses

Perante tal cenário, qual a legitimidade de nos indignarmos com cursos de injectáveis a Farmacêuticos ou de parteiros a bombeiros quando no seio da própria profissão foram criadas condições que podem encorajar incursões clandestinas nos campos consagrados à Enfermagem?

Poderão os mais serenos arengar que o conhecimento nunca fez mal a ninguém…mas o que não podemos escamotear é que o conhecimento traz-nos muitas outras tentações, e como diz Bacon, o conhecimento é já em si uma forma de poder. Não pugno pela defesa do conhecimento encarcerado em torres de cristal, mas defendo também que o mesmo não pode ser desbaratinado ao acaso, pois o conhecimento é coisa séria, tem propósitos definidos, enquadra-se por objectivos próprios. Por exemplo, nenhuma Faculdade de Medicina aderiu ainda a esta nova forma de “navegar” no Ensino Superior, cada vez mais em “Banda Larga”, talvez por considerar que os conteúdos curriculares dos seus cursos de Medicina interessem apenas a quem um dia se torne médico.


Vender” lotes de cursos de Enfermagem, neste caso de Especialidades, para além de perigoso banaliza a formação dos próprios Enfermeiros. A especialização em Enfermagem, etapa lógica do percurso de formação do profissional que se quer consistente e dirigista, sequencial a determinados passos prévios, perde a sua credibilidade ao se permitir que este processo se torne numa espécie de existência amorfa, uma espécie de entidade indiferenciada que apenas é aquilo que quiserem fazer dela. Essa mesma formação, alvo de um processo de reconversão mercantil serve agora para todos experimentarem o gostinho da Enfermagem. Creio até que se terá iniciado uma nova modalidade de turismo, que augura grande entusiasmo: o turismo académico.
Enfermeira
 
Quero clarificar mais uma vez que não sou contrário às UCI, mas penso que deve existir um método mais judicioso na sua aplicação. Numa época em que as várias profissões de nível superior lutam por demarcarem o seu território a Enfermagem parece caminhar em contra-corrente. As profissões são agrupamentos de pessoas, conhecimentos e funções agrupadas dentro das mesmas fronteiras. Esbater limites e fronteiras da profissão acaba por colocá-la numa situação de vulnerabilidade, sujeita à erosão por outras áreas concorrentes e por diluir a sua substância por outros territórios que não o seu. A regulação da profissão levada a cabo pela OE poderá e deverá dar-nos um sentimento de segurança ao garantir que ninguém se formará Enfermeiro exteriormente aos processos formativos regulares.

No entanto, aquilo que deve merecer os holofotes da nossa atenção são aqueles que, não sendo Enfermeiros praticam e exercem parcelas da Enfermagem, mais ou menos encapotados, com ou sem uma definição profissional própria. Este carril poderá, uma última instância, levar ao aparecimento paralelo de “pseudo-enfermeiros “proclamadamente apátridas de classe, gerados no mesmo úbere onde são gerados os legítimos Enfermeiros, misturando na sua prática profissional ou social fragmentos de Enfermagem sem no entanto os reconhecerem como tal. A Enfermagem terá necessariamente de pertencer em exclusivo aos Enfermeiros, pois são eles que a tornam válida e lhe conferem dignidade; essa mesma Enfermagem nunca poderá ser um passatempo, um hobby, um acessório, uma espécie de “Pseudo Novas Oportunidades” pois é um assunto demasiadamente sério!

Creio que este tipo de experiências, acredito que na sua génese bem intencionadas, poderá trazer efeitos malévolos para a Enfermagem no futuro. A Enfermagem tem de ser uma profissão que prima pela exigência técnica e científica, tem de ser definir e assentar a sua evolução numa estrutura de formação contínua forte e eficaz. Permitir a frequência de unidades curriculares isoladas sem qualquer tipo de limitação é abrir as portas a intromissões estranhas na vida da profissão, é favorecer o exercício de comparações indesejáveis a agentes externos á profissão.

 São já muitas as instituições de ensino superior que, seguindo os preceitos da lei, criaram o regime de frequência nas unidades curriculares isoladas. Entre elas estão já várias Escolas de Enfermagem, públicas e privadas, que já este ano lectivo admitiram novos estudantes ao abrigo deste regime. Mas quais são os proveitos e riscos potenciais para a Enfermagem com a adopção deste regime? Será que esta medida legislativa, nas suas feições gerais positiva e prolífica, pode ter consequências nefastas quando se aplica á realidade concreta da Enfermagem? È a estas perguntas que, fazendo uso apenas da reflexão confessadamente catalisada por alguma especulação tentarei responder nas linhas seguintes.

Mas o que são, na verdade, as Unidades Curriculares Isoladas (UCI) quando transpostas para a Enfermagem? Traduzindo, no esteio de democratizar o acesso aos conteúdos curriculares dos Cursos de Especialidade (e quiçá no futuro de cursos base), algumas instituições, por cerca de 75 euros por unidade curricular do ensino teórico faculta a frequência dessas mesmas unidades a quem interesse acalente por esta área do saber, avaliação incluída. Poderemos argumentar que tal iniciativa é producente e louvável, uma vez que faculta e multiplica oportunidades formativas à classe de Enfermagem. O grande problema começa no filtro que é usado para escrutinar a clientela alvo desta oferta, ou melhor dizendo a falta dele, pois esta inovação formativa, iluminada e inspirada pelo espírito de Bolonha, está aberta a qualquer profissional de saúde ou a simples curiosos procurando momentos de ócio intelectual e que, quiçá, talvez alimentassem um sonho velado mas gorado de um dia virem a ser enfermeiros. Por outro lado, não existe na maioria das escolas um limite ao número de unidades curriculares a serem subscritas, podendo cada proponente cursar uma ou 20 unidades curriculares em simultâneo.

Atentamente

Enfermeiro Nuno Pinto

  • Share/Bookmark

17 Responses to 'Especialidades de Enfermagem à la carte . (Artigo de Opinião – Enf. nuno Pinto)'

Subscribe to comments with RSS or TrackBack to 'Especialidades de Enfermagem à la carte . (Artigo de Opinião – Enf. nuno Pinto)'.

  1. Mais um Enfermeiro revoltado said,

    on December 17th, 2009 at 02:13

    Caro Nuno não podia estar mais de Acordo!

    Enf. Armindo Faria.

  2. Dizer que estou revoltada é pouco!!!!! said,

    on December 17th, 2009 at 02:15

    Onde é que vamos parar?
    ENF: Maria do Céu

  3. Rui said,

    on December 17th, 2009 at 03:11

    Esta aberraçao reflecte quem temos à frente das escolas , nomeadamente na ex-S.joao.

    Tem alguma logica? o todo não é a soma das partes

  4. ISTO NÃO PODE CONTINUAR!!!!! said,

    on December 17th, 2009 at 10:37

    A resolução parece-me simples, basta que a OE, saia da sua eterna passividade, e determine como pré-requesito para a frequência dessas unidade curriculares, que os mesmos sejam LICENCIADOS EM ENFERMAGEM! independentemente de estarem escritos no curso ou não.

    Caro colega Nuno parece-me que há aí um equivoco, pois quem está a fazer administração de injectáveis e pensos nas farmácias são os técnicos, alguns dos quais nem a 4ª classe tem, e não apenas e só os farmacêuticos, que NÃO TEM competência para o Efeito.

    Enf. Ana Queirós

  5. PAULO MONTEIRO said,

    on December 17th, 2009 at 11:37

    A ENFERMAGEM PORTUGUESA JÁ HÁ MUITO TEMPO QUE ESTÁ A SAQUE… QUEM PODE PARAR ESTE DRAMA ????!!!!!!

    CADA VEZ MAIS DESILUDIDO…

    PM / HSTV

  6. FS said,

    on December 17th, 2009 at 23:08

    MDP+UCI= RVCC + descrédito = BANALIZAÇÃO = ENORME BURRICE

  7. incomodado said,

    on December 18th, 2009 at 04:21

    Grande artigo de opinião .Parabens por denunciar isto

  8. Enfermeiro B.R. said,

    on December 18th, 2009 at 12:21

    A nossa Ordem tem que emitir pareceres sobre esta situação no S.João. É complicado partir o conhecimento assim. As partes e a sua soma não dão o todo.

  9. Filipa LimaNo Gravatar said,

    on December 18th, 2009 at 18:51

    Encontro-me numa pós-graduação na ESEP e contacto por isso mesmo com alunos das UCI. Não li os critérios de selecção mas para já os que lá andam são todos enfermeiros. Se ser enfermeiro for condição para aceder às mesmas estou totalmente de acordo. É uma forma de formação como qualquer outra. Se como dizem qq pessoa puder aceder então a coisa já muda de figura…não tem lógica que uma disciplina dirigida a enfermeiros seja leccionada a pessoas que nada têm a ver…

  10. edgarNo Gravatar said,

    on December 18th, 2009 at 19:47

    UCS medicina s joão:
    segue o link:
    para 2009/10
    http://sigarra.up.pt/fmup/noticias_geral.ver_noticia?p_nr=1487

    para o ano 2008/09
    http://sigarra.up.pt/fmup/noticias_geral.ver_noticia?p_nr=1057

    A fragilidade advirá da participação em simples unidades curriculares singulares de “intrusos/ agentes”!? será esse o factor que confere tal fragilidade à profissão!? não sei se na escola de enfermagem a frequencia não está limitada (na faculadade de medicina do sjoão qualquer ano lectivo é limitado por ECT´s…seja aluno de medicina ou aluno de UCS).
    UCS só para licenciados em enfermagem!?
    Vamos nos concentrar no nosso “umbigo”!

  11. Incrédulo said,

    on December 18th, 2009 at 23:58

    Excelente artigo! De facto, li as condições de acesso às UCI no S. João e elas estão abertas a qualquer comum dos mortais. O critério de seriação é a ordem de inscrição…ou seja, um curandeiro pode ficar á frente de um enfermeiro neste sistema de selecção.
    Na Escola Superior de Enfermagem de Chaves as UCI alargam-se às disciplinas do curso de base!
    Não me admirava nada se um dia surgisse um curso de Enfermagem via internet!

  12. Zx said,

    on December 19th, 2009 at 01:14

    E o que é que a nossa Ordem diz , nomeadamente a Secção regional do Norte que até à pouco tempo anunciava este panorama no proprio site da Ordem ? :(

  13. Elsa MoreiraNo Gravatar said,

    on December 19th, 2009 at 20:28

    Mais do mesmo…..
    Seguir link(nome).
    Parabéns pelo artigo!
    Elsa.
    BOAS FESTAS!

  14. Será? said,

    on December 20th, 2009 at 00:58

    Acabei de ver uma reportagem na SIC que me deixou espantada. Umas “socorristas” fazem cuidados de saúde ao domicílio, incentivadas e com formação feita por um enfermeiro?
    Alguém que conheça este colega que Presidente da Junta que não deve permitir o exercício ilegal da profissão e muito menos vir para a televisão gabar-se disso. A OE devia tentar perceber melhor o que se passa ou se é mais uma “liberdade” dos jornalistas.

    http://sic.sapo.pt/online/video/informacao/noticias-pais/2009/12/cerca-de-26-pessoas-receberam-formacao-para-socorrer-idosos-isolados19-12-2009-211412.htm

  15. Anonymous said,

    on December 21st, 2009 at 04:22

    Isto é desmembrar o conhecimento. Uma total aberração tudo porque as escolas e a formação há muito se distanciou da pratica clinica.

  16. José Arruda said,

    on December 28th, 2009 at 18:53

    As escolas procuram o lucro para poderem sustentar o excesso de professores que lá estão refugiados a debitar filosofias baratas e a habitarem num ideário de enfermagem que pura e simplesmente não existe.
    Qualquer dia vamos ver “quase-enfermeiros”, que se diferem dos enfermeiros “regulares” apenas pelo canudo; serão os novos enfermeiros de pé descalço

  17. Elisa CabralNo Gravatar said,

    on December 31st, 2009 at 00:50

    Estou inteiramente de acordo com o artigo. Há uns anos atrás,um colega comentou que a profissão de enfermagem se iria extinguir ao fim de alguns anos e eu ri-me. Agora penso mts vezes que talvez ele não estivesse de todo errado. Os fisioterapeutas substituem os enfermeiros de Reabilitação; os técnicos de análises colhem sangue; os farmacêuticos aplicam os farmacos; os auxiliares de acção médica, cuidam das higienes…. Afinal para que vão servir Enfermeiros,?
    EC

Post a comment